Doces Príncipes – Uma seleção de 13 sauternes, o cobiçado vinho francês de sobremesa
Entre os mais gloriosos vinhos de sobremesa do mundo estão os da região de Sauternes-Barsac. Suas uvas se acham plantadas num dos privilegiados terroirs da francesa Bordeaux. São encontrados em quase todas as faixas de preço. Contudo, embora o rei da família seja o insuperável Château d’Yquem, a dignidade principesca vai se manifestar em vinhos especiais, notadamente os châteaux cru classées e outros de renome. Entretanto, os mais acessíveis, quando bem elaborados, são envolventes e representam uma opção para acompanhar as mesas em que imperem doces e frutas secas. Exemplo: as que enriquecem as mesas de Natal. São vinhos aconchegantes, de base adocicada, porém com boa acidez, que lhes confere vivacidade. Os degustadores de Gula provaram Sauternes disponíveis no mercado. Confirmou-se a regra: os três châteaux de renome destacaram-se dos demais. Mas desvendamos algumas smart buys. Basta o leitor comparar os preços com as estrelas e descrições dos vinhos. Porém, deve prestar atenção aos volumes das garrafas, que não são uniformes.
A doçura é natural das uvas. Isso porque elas são colhidas muito tardiamente, depois de atacadas pela pourriture noble (podridão nobre), causada pelo fungo Botrytis cinerea. Os preços altos se explicam. Além do pequeno volume de mosto por área de vinha, a elaboração de um bom Sauternes é muito trabalhosa. Os vinhos devem ter pelo menos 13% de álcool. São permitidas três castas, todas brancas: Sémillon (a mais plantada), Sauvignon Blanc e Muscadelle (em pequena proporção). Vinhos doces naturais, ou seja, não recebem adição de álcool para interromper a fermentação do mosto. Ela normalmente pára por si, quando atinge aproximadamente 14% de álcool. Outras vezes pode ser interrompida com adição de dióxido de enxofre, que mata as leveduras. O açúcar residual, não desdobrado em álcool, confere o adocicado ao vinho. Em safras mais complicadas, é permitida a chaptalização do mosto, ou seja, a adição de açúcar.
No geral, os vinhos que degustamos apresentaram cor dourada e uma base agradavelmente doce, muitas vezes lembrando mel. Exibiram frutas tropicais, como abacaxi, manga, maracujá. Outras vezes eram cítricos. Apareceram notas de especiarias (baunilha, cravo, canela), intensidade, frescor, textura sedosa e instigante. Além de caráter acolhedor, mostraram-se brancos estimulantes. Estão apresentados em ordem decrescente de classificação. Na faixa de quatro estrelas, a diferença das médias foi de 1 ponto; na de três, de quatro pontos; na de duas estrelas, 1 ponto.
Das safras recentes, a de 2001 reina soberana como uma das mais gloriosas de todos os tempos. As de 2002 e 2003 são excelentes. De 1996 a 2000 e 2004 foram safras muito boas, que originaram vinhos resistentes e longevos, por sua concentração, açúcar, acidez e teor alcoólico. A prova transcorreu às cegas, em copos padrão internacional, como sucede habitualmente nas degustações de Gula. Ocorreu no restaurante Santo Colomba, de São Paulo. Finalizados os trabalhos, todos saborearam reconfortante refeição preparada pelo chef Alencar: filet de pargo ao forno, com vermicelli ao vôngole, seguido de uma deliciosa vitela. O sommelier Toninho orientou o serviço, apresentando os vinhos na temperatura ideal (em torno dos 9 graus ). Além deste redator, participaram da prova os competentes degustadores Alexandra Corvo, Alexandre Bronzatto, Clóvis Siqueira, Ennio Federico, Giba Reis, José Ruy Sampaio, Luciano Percussi, Luiz Carlos Zanoni, Manoel Beato e Saul Galvão.


